Seda (Alessandro Baricco)

Quanto de ilusão, desejo e fantasia conseguimos projectar no outro? Quanto de uma vida é constituída à base desta realidade que não existe senão no nosso imaginário, no mundo interior que cada um vai erigindo?

Doeu-lhe ouvir, no fim, Hervé Joncour dizer baixinho:
- Nunca ouvi a sua voz uma única vez.
E de seguida:
- É uma dor estranha.
Devagar.
- Morrer de saudades de uma coisa que nunca se irá viver.

Baricco traz-nos uma história de ilusão, suave como a seda, que delicadamente se tece e nos embala. Uma história de descoberta de um mundo diferente, longínquo, inacessível. 

Hervé, o jovem protagonista, deixa-se seduzir pela envolvência desta estranheza, pelo arrebatamento do desconhecido, pela delicadeza do inalcançável, deixando-se inebriar pelo mundo do sonho e da fantasia, sem que isso, aparentemente o desvie do seu caminho.

Mil vezes procurou os olhos dela, e mil vezes ela encontrou os dele. Era uma espécie de dança triste, secreta e impotente. Hervé Joncour dançou-a até ser noite funda, depois levantou-se, disse uma qualquer frase em francês para se desculpar (...) e foi-se embora.

Mais importante do que isso, sem que o seu caminho se desvie dele.

Pontuação: 7/10
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Vida Desfeita (Sonali Deraniyagala)


Um dia entrei na Fnac e perguntei se tinham o livro "Yoga para Nervosos". O rapaz que me atendeu disse-me que não, pelo que lhe perguntei (sem que me ocorresse nada de melhor) se tinham uma secção sobre Yoga (para que pudesse ir lá espreitar, desconfiando daquela resposta tão pronta), ao que me respondeu «Não, mas temos uma secção para nervosos». Foi o momento mais humorístico que tive numa livraria, ainda hoje me recordo dele com carinho!

Este seria seguramente um livro que não encontraria nessa tal secção. Passei as primeiras cinquenta páginas a chorar - baba e ranho - quase ininterruptamente. Pausando, de vez em quando, para me recompor e retomando pouco depois, quando me sentia capaz de prosseguir, para de novo interromper, umas páginas mais adiante, já sem conseguir discernir as letras à minha frente.

Trata-se do relato, na primeira pessoa, de uma mulher que se encontrava de férias no Sri Lanka com os pais, o marido e dois filhos, quando se deu o tsunami, em 2004. Sonali foi a única sobrevivente da família e o seu mundo ficou dividido entre um antes e um depois da catástrofe. É entre estes dois espaços temporais que a narrativa se desenvolve, evocando os momentos simples, mundanos, insuspeitadamente felizes e o regressar a uma vida que colapsou, que não se sabe como retomar sem aqueles que faziam parte dela, que lhe davam sentido, em que se alicerçava toda uma existência.

«Houve uma série de primeiras vezes. A primeira vez que desci as escadas de casa da minha tia, assustada, sabendo que não veria uma pilha de sapatos junto à porta de entrada, como havia em nossa casa. A primeira vez que vi dinheiro. Estava como o meu amigo David, (...) estremeci ao ver a nota de cem rupias na sua mão. Da última vez que vi uma nota daquelas, eu tinha um mundo»     

Se o choro é terapêutico, então este livro é uma espécie de terapia imersiva profunda. E uma lição de vida e superação, de humildade perante as nossas zangas e revoltas - tão pequenas, tão insignificantes - quando vistas em perspectiva.

Pontuação: 7/10
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Lolita (Vladimir Nabokov)

Wook.pt - Lolita
Li este livro há já alguns anos e pouco retenho da história, mas aquilo que me ficou e nunca mais esqueci foram sensações. As mais incríveis. A sensação de um calor abrasador, a letargia e languidez dos personagens, uma certa luminosidade que ainda hoje me parece reconhecer nalguns dias de verão...

Polémicas à parte - porque, objectivamente, o enredo é sobre uma relação ilícita (jurídica e moralmente falando) e a todos os níveis condenável - a verdade é que, do ponto de vista literário, estamos perante uma obra prima.

Um livro que consegue incutir no leitor imagens de uma tal vivacidade e intensidade que nos parece, mesmo à distância de muitos anos, que surgem diante de nós como se as tivéssemos visto e sentido na primeira pessoa é, quanto a mim, a expressão máxima da sublime arte literária.

O sol implícito pulsava nos choupos; estávamos fantástica e divinamente sós. Olhei-a, envolta na poalha rósea-dourada, para além do meu prazer controlado, inconsciente dele, alheia a ele, o sol brincava nos seus lábios, e os seus lábios continuavam, aparentemente, a formar as palavras da cantilena Carmen-barmen que já não alcançavam o meu inconsciente.

Vi o filme (de Adrian Lyne) há alguns anos também e - como habitualmente acontece - não reflectia minimamente a densidade da narrativa. Talvez porque, neste caso (como em outros) aquilo que mais impressiona é a descrição do que se passa no interior dos personagens - o que pensam, o que sentem, as lutas que travam interiormente - e isso é difícil de reproduzir em imagem.

A este respeito, José Riço Direitinho observa, na crítica que faz ao último romance de Javier Marías, que a acção narrada torna-se reduzida, algumas cenas descritas parecem quadros ou cenários imóveis, como se fosse necessário parar o tempo para se conseguir perceber melhor a vida. É este efeito de fragmentação da acção, de escrutinação de pequenos segmentos temporais, com um detalhe e uma precisão inusitados que Nabokov também provoca, catapultando-nos para o âmago dos acontecimentos, onde eles realmente acontecem - na sua génese - muito antes de tomarem forma no mundo exterior.


Pontuação: 10/10
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Minha Ántonia (Willa Cather)

Minha Ántonia não foi a experiência de leitura que esperava. Talvez por não ser este o tipo de narrativa que imaginei que ia encontar. Apesar de tudo (e isto deve querer dizer qualquer coisa, li-o em três dias).

A história é-nos trazida por Jim, que se encontra numa viagem de comboio com um amigo de infância (passada numa zona rural do Nebrasca) que o leva a recuperar as memórias do que aí viveu, a partir dos 10 anos de idade, em casa dos avós que o acolheram na sequência da morte dos pais.


Durante esse dia sufocante em que atravessamos o Iowa, a nossa conversa foi sempre parar a uma figura central, uma figura boémia que ambos conheceramos muitos anos antes.

Em torno desta figura central, que conheceu no dia em que chegou a esta terra agreste, por desbravar - aqui muito bem caracterizada - o narrador recua até esse periodo da sua vida, recuperando um conjunto de episódios e vivências marcadas, numa primeira fase, pela simplicidade e a perspetiva muito realista de uma criança de 10 / 12 anos, o que torna a narrativa - nesta parte inicial - pouco elaborada e muito presa ao nível do concreto e observável.

Ántonia, igualmente chegada a esta terra de colonos e apregoadas oportunidades, acaba por seguir um rumo distinto de Jim, que entra para a escola pouco tempo depois, enquanto Ántonia permanece ligada ao trabalho da quinta, onde é esperado que ajude a mãe e os irmãos, e como criada ao serviço de uma família, mais tarde:


Nenhum dos meus colegas de escola era propriamente interessante, mas de alguma maneira eu sentia que, ao travar amizade com eles, estava a vingar-me da indiferença de Ántonia para comigo.

À medida que Jim se desenvolve, também a leitura que faz do mundo se aprofunda, tornando a narrativa mais densa e apelativa:

Esse modo de vida cauteloso era como viver sob um regime de tirania. Os discursos das pessoas, as suas vozes, os seus próprios olhares tornavam-se furtivos e reprimidos. Cada gosto individual, cada apetite natural, era refreado pela cautela. As pessoas que viviam no interior dessas casas, pensei, tentavam viver como os ratos que habitavam as suas cozinhas; sem fazerem barulho, sem deixarem rasto, passando por cima das coisas na escuridão.

O final tem uma tonalidade especialmente doce, de reencontro com os afetos de uma vida passada, de ressignificação e atar de pontas soltas, de reflexão sobre o espaço que as memórias (e as pessoas dentro delas) ocupam em nós. E de como, por vezes, essas memórias se revelam mais vívidas, mais presentes e valiosas do que todas as vivências que lhe sobrevenham.

Pontuação: 7/10
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Longe da Multidão (Thomas Hardy)

Longe da Multidão foi a minha primeira experiência com Thomas Hardy. Há muito que desejava ter lido Tess dos D'Urbervilles, então ausente das livrarias portuguesas - omissão que a Relógio D'Água veio suprir com a edição lançada em 2019.

Creio que foi com algum receio que me lancei na leitura deste livro - tinha terminado o Parque de Mansfield, da Jane Austen (um dos últimos que ainda me restavam desta autora de quem tanto gosto) e queria muito voltar ao período Vitoriano, de onde me custa sempre sair no final de cada romance, pelo que foi uma escolha impulsiva, em modo ressaca, apesar de já o ter na estante há algum tempo.

Os receios depressa se mostraram infundados. Thomas Hardy é um recriador de cenários extraordinário e possuidor de uma mestria inigualável na reprodução de estados anímicos e afectivos. Foi aqui que descobri uma das melhores descrições de paixão de que tenho memória: é não ser capaz de pensar, ouvir ou olhar em mais nenhuma direcção, a não ser uma, sem cair na melancolia, e, nesse caso, não estar a salvo da tortura.

Isto foi dito pelo Sargento Troy, um homem lisonjeador, tão ao jeito da Inglaterra Vitoriana, e tão nefasto nessa precisa época em que as mulheres eram vistas como frágeis presas, sujeitas a cair no logro do terrível predador e a ficarem, a partir daí, perdidas para todo o sempre.

E se por acaso dermos por nós a questionar Mas porque razão ficariam perdidas? Que absurdo é esse de ter caído em desgraça por ter beijado ou - infâmia suprema - se ter deitado com um homem que afinal não a veio a desposar?, talvez não seja por acaso. Na época, eram estas as convenções sociais vigentes, e Hardy procurava denunciar isso mesmo através dos seus romances: a forma como a sociedade se organizava entre si, o tipo de padrões a que cada um obedecia e se submetia de forma acrítica, originando este todo colectivo opressivo, punitivo e castrador - para nós hoje - claramente desajustado e causador de tanto sofrimento.  

Havia algo de tão singular e arrepiante na dor infantil e singela deste apelo, vindo de uma mulher com o calibre e a independência de Bathsheba, que Troy, libertando o pescoço dos seus braços firmes, olhou para ela confuso.

Bathsheba, a protagonista deste romance, vê-se objecto de um amor sincero e devotado por parte de Gabriel Oak (um homem simples e humilde, junto de quem despertou esse sentimento de forma leviana e inconsequente), e do afeto insuflado e galante do Sargento Troy, que pouco mais vê do que a sua necessidade de alimento para um ego insaciável, que vai semeando sofrimento por onde passa.  

A intensidade do sentimento é proporcional à grandeza do carácter e, apesar de todo o seu sofrimento, que não cabia nas forças que tinha, Fanny talvez não tivesse conhecido, num sentido absoluto, a dor que Bathsheba sentiu naquele instante.

Berthsheba é, à semelhança das grandes protagonistas da história da literatura, uma mulher à frente do seu tempo. Perseverante e determinada, não se subsume aos padrões instituídos, exercendo o direito a viver nos seus próprios termos e rejeitando o papel que a sociedade lhe atribuiu. Uma personagem que se ergue tantas vezes quantas aquelas que tomba e sai fortalecida de cada uma dessas vezes. E dá gosto assistir a esse processo, a esta vivência tão bem descrita e abordada por Thomas Hardy.

Pontuação: 9/10
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Pássaros Feridos (Colleen McCullough)

Há tempos alguém me pedia que lhe recomendasse um livro - o que adoro fazer - e enquanto pensava, percorrendo mentalmente os títulos que de imediato me acorrem à memória, ouço esta única indicação: mas que não seja uma história triste! E com isto, todo o meu acervo mnésico colapsou, fiquei em branco...

Não é que não tenha lido já muitos livros de histórias felizes, ligeiras, mas são raros os que se ficam só por aí, e não são seguramente esses que ficam na memória. Talvez por serem aqueles que menos se assemelham à realidade, que nunca é feita exclusivamente de momentos felizes. Talvez não seja sequer maioritariamente feita desses momentos, que - além do mais - são sempre e apenas isso, momentos. Isto foi qualquer coisa que demorei a perceber, e a aceitar.

Scott Peck inicia O Caminho Menos Percorrido - que li há muitos anos - com esta singela consideração: A vida é difícil. E prossegue a partir daí. E isso, esta simples afirmação, foi extremamente libertadora, na altura em que a li. Percebi, finalmente, que não havia nada de anómalo no percurso que estava a fazer. Não se tratava de ter escolhido o caminho da direita, quando porventura devia ter escolhido o da esquerda, ou de estar a fazer qualquer coisa de errado para que tudo me parecesse, de certa forma, mais difícil do que imaginei que deveria ser. Ocorre-me também, a este propósito, um excerto do livro de Manuel Vilas que comentei aqui há dias e que me fez muito sentido:


“Dou-me conta neste instante de que aconteceram grandes coisas na minha vida e, no entanto, carrego um sofrimento profundo. A dor não é de todo um entrave à alegria, tal como eu entendo a dor, pois para mim está vinculada à intensificação da consciência. O sofrimento é uma consciência expandida, que alcança todas as coisas que foram e serão.”

Não basta, porém, uma vida de sofrimento para se alcançar esta consciência (no fundo, para se poder crescer), é preciso pensar sobre ele. Não fugir disso que nos aflige, mas antes, olhá-lo nos olhos, enfrentá-lo e dizer-lhe “Estou aqui, quem és tu e o que queres de mim?”

Pássaros Feridos é também - à semelhança de outros de que tenho falado aqui - um romance triste. É a história de uma família que se fixa num local remoto do interior da Austrália, centrando-se em particular na vida de Meggie, que conhecemos em criança, e vemos crescer - em estatura e em vida interior - e da paixão indómita que desenvolve (como quem contrai uma tuberculose, instalando-se progressiva e lentamente, ganhando raízes profundas, para não mais abandonar o peito em que se hospedou) por um jovem clérigo e como esse sentimento a acompanhará e moldará ao longo de toda a vida.

À semelhança do que dizia acima, Meggie não se limita a sofrer a desdita do destino, a vergar-se ao peso da dor e da frustração. A sua vida é objeto de reflexão, elaboração e luta. Apesar de tudo - e sem querer revelar mais do que devo - é uma história de renúncia, de contenção, mas também de resiliência, de afetos intensos e sublimes. Em todos os meus muitos top 10 de favoritos - que mudam constantemente - este está lá sempre. 


Pontuação: 10/10
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Memórias do Subterrâneo (Fiodor Dostoiévski)

Quase tudo neste livro é incómodo. O protagonista começa por dizer que é um homem doente, repulsivo, «acho que tenho alguma coisa no fígado. De todo o modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer». É um homem amargo, mais do que outra coisa. Que vê a vida - a sua, a dos outros - toldada por essa mesma amargura áspera e corrosiva com que conduz a sua vida. 

Poucos livros me causaram tanto desconforto como este. Em Busca do Tempo Perdido, que abandonei nas primeiras páginas, terá sido outro vencedor nesta categoria, à semelhança de O Estrangeiro, de Camus e Escuta Zé Ninguém, de Wilhelm Reich, que apesar de tudo (em ambos os casos) levei até ao fim.

Há qualquer coisa de profundamente autodestrutivo no pensamento e no comportamento do protagonista que acompanhamos ao longo destas 190 páginas, um negrume espesso, viscoso, difícil de dissipar, que tolhe, desconcerta e desalenta.

É efetivamente um homem doente que nos fala, através da pena de Dostoiévski. Não do fígado, conforme supõe, mas da alma. Essa mesma alma turva e disfuncional que o leva a submeter-se às mais ignóbeis vilanias - por si autoimpostas - sem que se descortine outra razão que não seja um aparente desejo de autopunição, acoberto da vontade de provar a si próprio, ou pior do que isso, aos outros - esses outros que despreza - algo de irrisório, para não dizer absurdo e supérfluo.

«Passar-se-iam dez, vinte anos, quarenta anos, é mesmo dentro de quarenta anos eu me lembraria com nojo, com aviltamento desses minutos, os mais ignóbeis, os mais ridículos e os mais apavorantes da minha vida.»

Num segundo momento o protagonista dá uma outra forma - apesar de tudo mais saudável - à sua angústia, desespero e azedume, transformando-o numa espécie de fogo fátuo que dirige a uma figura feminina em quem investe de forma obstinada, um pouco descabida e irrefletidamente. A narrativa assume assim um caminho mais leve, menos autolesivo - e por isso mais fácil de acompanhar - pese embora o logro em que assumidamente assenta este novo rumo e do desfecho que o mesmo manifestamente terá.

«O homem é uma criatura leviana e pouco escrupulosa e, talvez, à semelhança do xadrezista apenas goste do processo de ir para determinado objetivo e não do objetivo em si.»

Enfim, Dostoiévski é um mestre da narrativa, da descrição de estados de alma - dos mais negros e perturbados aos mais sublimes e elevados - e isso passa para o leitor. Se são as linhas de esgoto que descreve, é certo que sentiremos náuseas. Se, ao invés, for o êxtase e o júbilo, é isso que nos fará sentir. E entre uma coisa e outra, vai revelando aquilo que faz dele um dos grandes nomes da literatura mundial de todos os tempos. Não obstante, e apesar do pouco que li dele, diria que não será o melhor livro de Dostoiévski. Espero em breve vir a pegar em algo mais substancial.

Pontuação: 7/10
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Em tudo havia beleza (Manuel Vilas)

Manuel Vilas é um autor que vale a pena conhecer. Ao mesmo tempo que recupera imagens esquecidas da realidade espanhola das últimas décadas do século xx, Vilas abre-nos as portas para o seu mundo interior (denso e intrincado como habitualmente estes mundos são, mas ao mesmo tempo simples e elementar, como só o mundo da infância - à qual regressa - consegue ser, especialmente evidenciado na evocação de pormenores, detalhes em que se detém como se nada mais pudesse ocupar o seu campo perceptivo e emocional). 

Acontece-me, por vezes, encontrar semelhanças entre autores de um determinado tempo e espaço (os russos são talvez um exemplo paradigmático). Também aqui encontro pontos de contacto - tanto ao nível dos temas (a perda e o luto), como no tom muito confessional - entre Vilas e Rosa Montero, que tanto prazer me deu ler há bem pouco tempo.

Vilas tem essa mesma escrita que envolve, que acolhe, por via da qual vai desfiando, devagarinho, aquilo que tem para nos dizer, regressando incessantemente aos recessos do passado, do seu mundo afectivo, episódico, individual, relacional e familiar - um mundo simultaneamente tão recuado e tão presente - sem pressas, sem um objectivo definido ou um plano traçado, que não o simples prazer ou necessidade de o fazer. 


«E essa é outra parte fundamental da minha pessoa: toda a vida me acompanhou o receio de ficar louco, de não saber racionalizar as coisas que me aconteciam, de que o caos me atropelasse.»

A
arte - dizia Pessoa - consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. E é isto que Vilas faz, liberta-nos de nós por momentos, ao transportar-nos para debaixo da sua pele, fazendo-nos mergulhar nas suas reflexões, nas suas memórias - sem porém nos afastar de nós próprios, por força das pontes que lança na nossa direcção, por cada um dos momentos em que nos revemos, encontramos e descobrimos naquilo que escreve. 

«Em criança (devido à minha personalidade em formação ou à minha timidez), eu sofria por não saber encontrar um lugar entre os demais, entre os colegas de escola, pensava sempre no meu pai e na minha mãe, confiando que eles tivessem uma explicação para a minha invisibilidade social. Eles eram os meus protectores e quem guardava o segredo da razão da minha existência, que a mim me escapava.»

Em tudo havia beleza é uma majestosa peça de arte sob a forma escrita. Não daquelas peças tão preciosas, requintadas e frágeis que ficam confinadas a uma existência protegida e assética no interior de uma vitrine, mas daquelas que se podem tocar, sentir e usar no dia-a-dia. 

Pontuação: 9/10 
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O Amor É - Para memória futura (Júlio Machado Vaz)



O amor é, foi, e continuará a ser o tema que mais me intriga em toda a história do mundo e da humanidade. Em todas as suas múltiplas formas e sentidos (o primeiro de todos: entre a mãe e o bebé, e qualquer um dos subsequentes: pais e filhos, avós e netos, irmãos, primos, namorados, cônjuges, amigos, amantes, o amor que pomos naquilo que fazemos, naquilo a que nos entregamos e dedicamos), os mais diversos e variados.

Perdi a conta ao número de livros que li sobre o assunto - o que é, o que não é, como se manifesta, como se cuida, como se constrói, como se destrói, como se confunde, como nos confunde - e nunca, até hoje, me senti suficientemente esclarecida.

"O Amor é" foi, por isso, mais um livro que li entusiasmadamente sobre o tema. E seguramente não foi o último. Júlio Machado Vaz e Inês Meneses mantêm, há já alguns anos, um programa de rádio na Antena 1 - que apenas ouvi amiúde - precisamente com o mesmo nome e estrutura e daí surge a ideia de o fazerem por escrito.

O livro parte assim de um conceito muito interessante e que resulta muito bem com a dupla que o protagoniza. Pegando na letra de uma música ou num poema, ambos vão discorrendo sobre o que ali se diz ou pretende dizer, sobre o que significa, o que faz pensar ou o que faz lembrar e vão elaborando a partir deste mote tão rico quanto inesgotável.

A palavra tem grande importância na sedução. Um dos bons exemplos é o Cyrano de Bergerac. Quando o Christian diz a Cyrano que já não precisa dele, vai para debaixo da janela e diz a Roxane: "Eu amo-te!". E qual é a resposta dela? "Isso eu sei, diz-me mas é como!" Ela quer é a poesia! Ela quer o arranjo floral à volta daquele sentimento, que Christian não consegue dar, pois não tem intelecto nem arte para isso. E lá vem o Cyrano para desenvolver o tema.

Diz-se que através da literatura temos a possibilidade de ouvir aquilo que têm para nos dizer as grandes personalidades da história. É um pouco isso que se passa aqui (com as devidas adaptações), são duas pessoas muito interessantes que estão à conversa sobre um tema particularmente interessante - na verdade, três: o amor, a música e a poesia - a que temos o privilégio de nos juntar. 

Pontuação: 7/10
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A mãe (Máximo Gorky)

Este foi um livro que li há muito tempo, estava a iniciar-me no estudo do Direito, que poucas coisas teve de melhor do que pôr-me a ler pilhas de manuais, verdadeiros tijolos, que intercalava com outros livros que me vinham parar às mãos, não sei bem como (ainda não era o tempo da informação à distância de um clique) e com os quais me construía e humanizava. Era o início da idade adulta, quando todo um conjunto de coisas nos marcam de forma indelével e incomparável com qualquer outro período a partir daí.

O livro - emblemático por todo um conjunto de razões - versa sobre o período tão próximo e aparentemente tão longínquo da Rússia czarista, no início do séc. xx. Um tempo de desníveis e injustiça social extrema, condições de vida (social, laboral, cultural, pessoal, familiar) de uma atrocidade difícil de apreender ou imaginar, e se não houvesse razões literárias suficientes que justificassem a sua leitura, o mergulho histórico nos tempos de obscuridade, opressão, luta desigual e movimento embrionário de revolta e mudança que aqui se vivem seria suficiente, por si só, para a recomendar.

Mas Gorky (pseudónimo que significa “amargo”) é, além do mais, um autor de calibre excepcional, à semelhança de outros tantos do seu tempo e espaço, sublime na construção de personagens (na elaboração de cada pensamento, sentimento, cada ímpeto, inquietação e centelha de desejo que lhes atribui), na recriação de cenários (que se desenham à nossa frente com um realismo que impressiona), na edificação da história e na atribuição de sentido, profundidade e beleza a cada linha que redige.


«Nós, a gente do povo - explicou - sentimos tudo, mas é-nos difícil exprimi-lo, não podemos formar senão ideias incertas; e envergonhamo-nos de não poder dizer o que sentimos. E quantas vezes, para falar com consciência, a gente não se zanga com as próprias ideias e com aqueles que no-las sugere! Começamos a irritar-nos e afugentamo-las! Em que agitação se passa esta vida! É ela que por todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... Mas os pensamentos não deixam à alma um só momento de repouso e ordenam-lhe que veja, que ouça.»

Se há livros em que a primeira página é o suficiente para se perceber - do ponto de vista literário - o que temos à nossa frente, este é um deles, pelo que transcrevo o parágrafo inicial, a título ilustrativo: 

«Todos os dias, a sereia da fábrica lançava no ar fumarento e oleoso, por sobre o bairro operário, o seu vibrante rugido. E das pequenas casas escuras, obedecendo ao chamamento, saíam à pressa, como baratas assustadas, pessoas taciturnas, cujos músculos o sono não conseguia revigorar. Na penumbra fria, caminhavam pela rua mal pavimentada para a grande gaiola de pedra da fábrica que, serena e indiferente, as esperava, vigiando o caminho lamacento com as suas dezenas de olhos quadrados e viscosos. A lama estalava sob os pés. Ouviam-se exclamações roucas de vozes ensonadas, pragas grosseiras cortavam o ar, e ao encontro das pessoas chegavam outros sons: o ruído pesado das máquinas, o grunhido do vapor. Sombrias e severas, as altas chaminés negras perfilavam-se sobre o bairro como grossos varapaus.»

Como é que este homem, de origens extremamente humildes, órfão de pai e mãe desde os 10 anos, altura em que começa a trabalhar para sobreviver - como sapateiro, jardineiro, estivador, padeiro, lavador de pratos num navio (onde veio a ter contacto com alguns livros, emprestados pelo cozinheiro, que despertaram a sua consciência política) - e sem mais instrução do que os primeiros anos da escola primária conseguia escrever assim, não sei. São os mistérios dos grandes talentos naturais.

Pontuação: 9/10
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Berta Isla (Javier Marías)

Assim como há quem escreva de forma sublime sobre o amor, Javier Marías escreve de forma exímia sobre o desamor. São marcantes os retratos de relações desapaixonadas, instrumentais, casuais ou fortuitas, que nos apresenta de forma crua e despida de artifícios.

Relações que podiam ser, como podiam não ser - nunca teria feito muita diferença na vida dos personagens, no seu curso, nos seus afectos, na teia que constitui as suas vidas (a não ser por acidente ou mero acaso) - corpos que se encontram para desfrutar do prazer que podem proporcionar um ao outro, sem grande entusiasmo ou emoção envolvida (com ou sem esforço, nesse sentido, por parte dos protagonistas). Em Berta Isla não é este o tema central, mas está lá, assim como estava - de uma forma mais vincada - nos Enamoramentos, o primeiro livro que li dele.

«Permaneceram juntos pouco menos de uma hora, passando neste tempo de ilusão do anunciado à ligeira melancolia daquilo que recém-sucedido já não deixa recordação nem claro está saudades, e na verdade começou a estar a mais e a esquecer-se enquanto ainda está a acontecer: sexo higiénico e não elaborado (...), sexo apático uma vez consumado.»

Daqui resultam quadros pontuados por alguma tristeza ou melancolia, por vezes até uma certa perplexidade dos protagonistas. É este, pelo menos, o sentimento que sobressai aos meus olhos. Assim como há aqueles que encontram, acima de tudo, a beleza numa tarde cinzenta, fustigada pelo vento e pela chuva, também haverá quem veja aqui a beleza ou mesmo a alegria. A alegria de cada um dispor do seu corpo livremente, de gerir os seus afectos conforme lhe aprouver, porque não?

Igualmente brilhante é
 a captação das contradições humanas. O querer e o não querer - ao mesmo tempo ou com intervalos muito curtos entre si - e a estupefacção tantas vezes sentida por quem vive essas inflexões e contradições permanentes, velozes, difíceis de apreender ou explicar à luz de uma lógica puramente racional.

Não obstante, Berta Isla é um livro sobre uma mulher que ama e é amada. Sobre uma relação projectada na adolescência, quando, ainda jovem, o casal se conheceu e imaginou, até anos mais tarde, na vida adulta. Uma vida que não era aquela que desejavam, mas que foi aquela que se proporcionou e que ambos - Berta e Tomás, um homem que afirma ter escolhido pouco mais no seu destino, do que a mulher a quem se juntou - aceitaram e viveram, adaptando-se-lhe com todas as suas forças e na medida das suas limitações.

«Divertíamo-nos juntos, apesar das brumas e do nevoeiro que envolviam as nossas vidas. (...) Preferia ter parte dele do que despedir-me, perde-lo de vista definitivamente e que se transformasse numa recordação.»

Javier Marias tem um estilo muito próprio de nos prender à sua escrita, dificultando-nos a decisão de pousar o livro, de fazer uma pausa na leitura, quase como se não quiséssemos interromper o curso do seu pensamento, a reflexão em que se lançou, onde nos embrenhou, e é num ápice que chegamos ao fim, sem darmos conta disso.

Pontuação: 9/10
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As Grandes Cartas de Amor (Elizabete Agostinho)

Começo por dizer que a leitura de uma compilação de cartas desta natureza, escritas pelo punho de tantas figuras extraordinárias - Proust, Tolstoi, Byron, Freud, Bethoven, Nietzsche, Stendhal, Dostóievski, Marx, etc - consegue ser perturbadora.

«Não deixa de ser amor, mesmo quando é unilateral. O que é absolutamente surpreendente é a resiliência e a abnegação destes apaixonados que, não sendo correspondidos e às vezes sem esperança de o virem a ser, se entregam de corpo e alma ao objecto do seu amor.»

Parece que, de alguma forma, todos estão tomados por uma doença do espírito - como se tivessem contraído um mesmo vírus, com uma sintomatologia muito específica e similar entre si - que os deixa de certo modo atordoados, profundamente alterados, levando-os a escrever desta forma tão veemente e inflamada, tão convictos da certeza que os anima e irremediavelmente impele a dirigirem-se ao objecto amado, que muitas vezes é um hoje e é outro amanhã.

Com a particularidade que, entre a leitura de uma e outra destas missivas, para nós que as recebemos nesta maravilhosa compilação (que reúne documentos com mais de 200 anos) dista apenas um segundo, o tempo de um suspiro. O que aconteceu entre uma coisa e outra? Quão volátil é o ser humano? Quanto consegue iludir-se a si próprio e ao outro?

A escrita é soberba, mas mais do que a escrita, é a humanidade de cada uma das grandes figuras - que aqui surgem como personagens enlouquecidas, nas mãos caprichosas e erráticas do amor, do erotismo e da paixão - que se evidencia e impressiona.


«São os pequenos grandes momentos do quotidiano que mais revelam as personalidades, desde o desespero quase infantil de Dostóievski ao frio romantismo de Mussolini para a mulher que renegaria e mandaria internar.»

Cada carta é antecedida de um pequenino texto que contextualiza as circunstâncias em que a mesma foi escrita, e é essa breve explicação - que em dois parágrafos resume um mundo de paixões, de intenções e trilhos percorridos - que por vezes consegue ser mais surpreendente do que a própria missiva em si (ou que torna a sua leitura ainda mais impressionante). Dois parágrafos que, tantas vezes e de um só fôlego, desmoronam a magnífica edificação de desejo e ensejo que então tomava lugar no peito de quem escreveu cada uma destas cartas, que agora podemos ler à distância de uma vida.

Pontuação: 8/10
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A Morte em Veneza (Thomas Mann)

Às vezes penso que já li os melhores livros da minha vida, aqueles que figurarão para sempre na lista dos meus favoritos, que mais me inebriaram, arrebataram, etc. É uma ilusão, como outra qualquer. 

A Morte em Veneza figura entre esses livros que mais me marcaram até hoje. É um livro pequenino (85 páginas), mas que tem um mundo dentro dele.

«Não há nada mais estranho e mais melindroso do que a relação entre pessoas que apenas se conhecem de vista, (...) obrigadas a manter uma aparência de mútua indiferença. Entre elas reina a inquietação, a curiosidade tensa, a histeria de uma necessidade de troca insatisfeita e artificialmente reprimida e também uma espécie de consideração constrangida. Pois, o homem ama e venera o seu próximo, quando não pode julgá-lo; o desejo é uma criação do conhecimento insuficiente.» 

A história é a de um deslumbre - uma paixão insidiosa - de um homem mais velho que admira (venera) à distância, um jovem rapaz, inacessível, por força das circunstâncias e das regras do decoro e da moral comummente aceites. O sentimento, porém, existe e instala-se no íntimo do protagonista, por muito ou pouco que isso seja conveniente ou do seu agrado.

«Tal noite continha em si a alegre promessa de um novo dia de sol preenchido pelo lazer suavemente ordenado e enfeitado por inúmeras possibilidades de agradáveis acasos. (...) Já se tinha habituado à agradável monotonia desta existência, ao suave esplendor desta forma de viver. Com efeito, que lugar!»

A narrativa é marcada por uma sensualidade muito particular, que atravessa todos os sentidos, aguçando cada um deles e provocando uma espécie de hiperfuncionamento exacerbado, através do qual a realidade é percepcionada com uma intensidade diferente, ampliada a todos os níveis (o êxtase da expectativa interiormente acalentada, o deleite dos pequenos detalhes percebidos, o júbilo do prazer longínquo e meramente imaginado).

«O seu espírito conturbado não queria saber nem desejava nada mais do que perseguir sem descanso o objecto que o encantava, sonhar com ele sempre que estava ausente e - à maneira dos amantes - dirigir palavras de ternura à sua silhueta. A solidão, a estranheza e felicidade de um êxtase profundo e tardio, encorajavam-no e persuadiam-no a permitir-se mesmo o mais extravagante, sem passar pela vergonha e rubores; de modo que um dia, ao regressar tarde de Veneza, parou no primeiro andar do hotel à porta do jovem belo e, em pleno delírio, encostou a testa à dobradiça da porta permanecendo assim durante algum tempo, sem temer ser surpreendido numa posição tão demente.»   

É esse estado de sensibilidade aumentada que Thomas Mann transmite e que se infiltra em nós ao percorrer estas linhas, fazendo da leitura uma espécie de experiência imersiva, de certa forma vivida e sentida na primeira pessoa.

Pontuação: 10/10
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Monsieur Proust (Céleste Albaret)

Céleste Albaret, governanta e confidente de Proust, traz-nos um relato emocionado dos últimos dez anos de vida do autor, no período em que escreveu Em Busca do Tempo Perdido, oferecendo-nos um retrato exímio do seu dia-a-dia, da sua personalidade peculiar, das suas excentricidades, do seu brilhantismo e genialidade, num tom muito íntimo, carregado de afecto e de beleza.  

«Faz agora sessenta anos que o vi pela primeira vez; todavia, é como se tivesse sido ontem. Era frequente ele dizer-me: "Depois de eu morrer, há-de pensar sempre no pequeno Marcel, porque nunca encontrará outro como ele". E vejo hoje que estava coberto de razão; aliás, como sempre. Nunca me separei dele, nunca deixei de pensar nele, nem de o ter como exemplo. Nas noites em que não consigo dormir, é como se falasse comigo.»  

O relato impressiona por aquilo que revela da vida desta figura emblemática da história da literatura – a forma como vivia exclusivamente de noite, quase sem se alimentar, como se dedicava por inteiro à criação literária, como era afável com aqueles de quem gostava, a delicadeza que punha na relação e no trato com estes últimos, a segurança que revelava na sua obra (mesmo depois de ver recusado o manuscrito), mas o que impressiona igualmente é a devoção, o enlevo e a ternura com que, passados mais de 50 anos, Céleste Albaret recorda o homem a quem o destino uniu por laços aparentemente tão ténues e, no entanto, tão marcantes e indeléveis:   

- Então, querida Céleste, viver sempre de noite, aqui, com um doente, deve ser bem triste, não?
E eu protestava. Ele estava a brincar, mas já tinha percebido, bem antes de mim, o que aquela existência representava para mim. É difícil de pôr em palavras. Era o encanto dele, a sua maneira de falar, com a mãozinha encostada à cara. (..) Quando a vida parou, para ele, parou para mim também.  

Há qualquer coisa de extraordinário nos relatos que nos chegam por parte daqueles que foram próximos de grandes figuras da história (veja-se um outro exemplo na biografia de Sofia Tolstoi), e que conseguem reproduzir não apenas os momentos da vida pública, mas também os aspectos mais delicados da sua vida singular, dentro de portas, revelando as inúmeras subtilezas da sua natureza e forma de estar, naquilo que têm de mais humano e semelhante a cada um de nós.

Pontuação: 8/10

Sinopse: Monsieur Proust é um livro de memórias dos últimos anos de vida de Marcel Proust. A autora, Céleste Albaret, foi governante, escriturária, por vezes cozinheira, frequentemente enfermeira de Proust. Foi a testemunha dos «oito anos-chave» da sua vida, em que uma reclusão cada vez mais severa, imposta pela necessidade de acabar o seu romance "Em busca do tempo perdido", só ocasionalmente era interrompida por saídas nocturnas para rever um amigo (numa «corrida às personagens»). A imagem de Céleste ao lado da cama de Proust, ouvindo os seus relatos e comentando-os; acudindo-o, enfermo; ou sugerindo modos práticos de adicionar texto às margens dos manuscritos, liga-se à do escritor imerso na escrita do romance, para este convocando tudo e todos a partir da cama em que se imobilizara. Entre Proust e Céleste criou-se uma amizade comovente e improvável, se considerarmos as diferenças de idade e de educação. Nas palavras de Céleste, «com ele, o que era fascinante era que, por vezes, eu sentia-me como sua mãe, mas, noutras, como se fosse sua filha»*. 

*A edição que li é da Imprensa da Universidade de Lisboa, que apenas encontrei na respectiva livraria, no Jardim do Campo Grande (antigo Caleidoscópio). 

Coração Impaciente (Stefan Zweig)

Stefan Zweig é um autor que dificilmente encontrarei palavras para descrever. O meu primeiro contacto com ele foi através de uma colectânea de contos - hoje dispersos por várias edições da Relógio d'Água - que dava pelo nome de Confusão de Sentimentos (um dos contos da colectânea) e fiquei como que inebriada, por tamanha beleza e intensidade. Sendo o romance o meu género favorito, o livro que destaco teria de ser o Coração Impaciente, que relata a história de uma relação que se estabeleceu "acidentalmente" entre Hofmiller e uma jovem inválida.

“Em nenhum abraço de uma mulher, nem no mais apaixonado, senti alguma vez deslevo tão intenso como neste afago quase de sonho! Quanto tempo isto durou, não sei. Tais acontecimentos ficam para além das medições normais do tempo (...) Perdido em vago e apático sonho, sentia o perpassar dos seus dedos na minha pele e ficava-me imóvel, confuso, envergonhado por ser amado tão ilimitadamente, e não sentir mais do que confuso acanhamento.»

Trata-se de uma história de desencontro amoroso, que tem por base um equívoco, difícil de desfazer, que desperta nos personagens os mais inflamados sentimentos, emoções e desejos, norteados pelo medo de ferir, de um lado, e pelo medo de oprimir, sufocar e - em última análise - de perder o objecto de tanta afeição, do outro.

«Severas, frias, acusadoras, as suas pupilas cravaram-se em mim, como se pudesse adivinhar os pensamentos por detrás da minha fronte. Não conseguira iludir a sua clara intuição. Notara que me tinha esquivado à sua ternura; este rápido beijo não significava amor, mas embaraço e compaixão.»

O que inexoravelmente prende, cativa, enreda e enleva na escrita de Stefan Zweig - catapultando o leitor para uma espécie de limbo de onde sai meio cambaleante de cada vez que é forçado a interromper a leitura - são os afectos ardentes, febris, profundos e violentos, descritos por Zweig com uma tal intensidade, argúcia e detalhe que se ouve tinir cada fibra, cada nervo de que é composto o íntimo dos seus personagens. Na descrição do tumulto que marca todo o enredo, Zweig utiliza uma linguagem de uma beleza arrebatadora, que nos transporta para outro tempo que parece ter vindo a desaparecer, aos poucos, da literatura (já para não dizer da realidade) dos nossos dias.

«Os que amam são dotados de estranha clarividência para com o verdadeiro sentir do ente amado; como o amor, de acordo com a sua íntima essência, exige o ilimitado, tem de tornar-se-lhe insuportável toda a medida, toda a calma. Numa ponderada recusa notam resistência, em toda a fria tranquilidade observam, com razão, oculta defesa.»

Pontuação: 10/10
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A Força do Hábito (Charles Duhigg)

Por norma leio um livro de não ficção ao mesmo tempo que leio um romance, pelo que é natural que tenha alguns de que queira falar aqui, apesar da ficção ser o meu género de eleição.

A Força do Hábito é um livro extraordinariamente bem escrito, com um estilo que agarra e cativa, transformando a experiência de leitura em algo muito gratificante, entusiasmante e uma série de outros predicados que tantas vezes estão ausentes neste tipo de literatura.

No outono de 1993, um homem que viria a tornar possível sistematizar muito do que hoje sabemos sobre hábitos entrou num laboratório de San Diego para uma reunião aprazada. (...) Cerca de um ano atrás, Eugene Pauly, estava em sua casa a preparar-se para jantar, quando a mulher referiu que o filho do casal, Michael, vinha visitá-los.
«Quem é esse Michael?», perguntou Eugene.
«O teu filho», responde a mulher, Berverly. «O que criámos juntos, estás a ver?»
Eugene olhou Beverly inexpressivamente: «Quem é esse?», perguntou.

Pegando em pedaços de vidas, de experiências - as mais díspares, peculiares e interessantes - e de movimentos que marcaram a história das organizações e da sociedade ocidental, o autor traz à luz uma série de mecanismos impressionantes do funcionamento humano, organizacional e civilizacional, aparentemente de pormenor e, por isso mesmo, difíceis de percepcionar, que norteiam de forma determinante o nosso comportamento, assim como os caminhos que tantas vezes percorremos, sem nos darmos conta ou conseguirmos compreender e, por conseguinte, alterar. 

Pontuação: 8/10
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Intimidade (Hanif Kureishi)

Este foi, talvez, um dos livros de que mais gostei em 2018. Descobri-o através de um blog literário (Ler-te) a que fui parar por acaso - muito antes de pensar em escrever estas linhas - e a partir daí percebi que a melhor forma de encontrar novos livros e autores passaria mais pela esfera virtual, do que por assediar amigos e conhecidos para que me dissessem o que estão a ler (ou o que tinham lido recentemente que mais gostassem) ou por me sujeitar à ditadura dos escaparates, onde um livro com uma dúzia de meses já não é novidade e fica relegado para o fundo das prateleiras, ofuscado pelos autores sensação do momento, que se valem muito mais da qualidade do marketing, do que do seu conteúdo.

Esta é a noite mais triste, porque me vou embora e não volto mais. Amanhã de manhã, quando a mulher com quem vivo há seis anos for de bicicleta para o trabalho e os nossos filhos forem jogar a bola no parque, porei algumas coisas num saco de viagem, sairei discretamente de casa, na esperança de que ninguém me veja, e apanharei o metro para casa de Víctor. Aí, e por tempo indeterminado, dormirei no chão do quarto minúsculo que ele gentilmente me ofereceu, ao lado da cozinha.

Assim começa a história. É um livro relativamente pequeno (115 páginas), mas carregado de intensidade, de significado em muito do que ali se escreve e analisa. Não sei se terá algum cunho autobiográfico - pessoalmente parece-me ter reflexões tão autênticas, tão genuínas que dificilmente terão saído de outra fonte que não o pensamento vívido, sentido na primeira pessoa - mas trata-se de um retrato maravilhoso de um homem que faz uma incursão pela sua vida - pessoal, relacional, emocional - enquanto pondera as razões para sair ou ficar na relação em que se encontra.

Talvez devesse ficar impressionado com o facto de não me ter apegado às coisas, de me sentir suficientemente solto e livre para me ir embora amanhã. Mas estou livre para fazer o quê? De certeza que a liberdade suprema é escolher abdicar da liberdade em nome das obrigações que prendem uma pessoa à vida - envolver-se.

Conheço poucas relações perfeitas - na verdade, as únicas que se aproximam desse conceito terrível são aquelas que apenas conheço ao longe - pelo que há todo um conjunto de lugares (dentro da relação e fora dela) mais ou menos comuns, mas nem por isso menos complexos, que o autor percorre connosco ao longo da sua minuciosa e aturada reflexão.

Esta noite, a minha emoção predominante é o medo do futuro. Sempre é melhor, por assim dizer, ter medo das coisas do que estar entediado com elas, e a vida sem amor é um longo tédio.

O tom é todo ele bastante duro, por vezes amargo, cáustico - mas também é disso que a vida é feita, e se pensarmos que podemos fugir disso, é melhor que nos preparemos para toda uma vida em fuga - ao mesmo tempo que consegue ser cândido e absolutamente surpreendente na forma como coloca e nos apresenta um conjunto de questões sobre o tema, sobre a vida, sobre a sua vida muito particular.

Ser capaz de suportar a nossa própria mente, de esperar até que a tempestade interior de pensamentos intoleráveis se dissipe, deixando-nos a contemplar os destroços - é um estado de espírito invejável.

O livro não termina como eu gostaria - não vou desencadear um spoiler alert, pelo que me abstenho de comentar esta pequenina parte, trata-se de meia página, não mais do que isso - mas todo ele é um deleite, ainda que por vezes incómodo e doloroso.

Foi a minha avidez por mais vida que provocou tudo isto, e nós somos criaturas ávidas, um saco de desejos insistentes. O bom senso diz-nos que não precisamos de seguir todos os nossos impulsos, de conquistar todas as mulheres que nos agradem. Mas calculo que se possa andar atrás de algumas delas, sem nunca saber de antemão que maravilhas nos podem estar reservadas.

Pontuação: 10/10
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