Educação Emocional


Há livros que nos leem a nós. Aqui fica um excerto das primeiras páginas de mais um contributo deste autor excecional para a difícil tarefa de abarcar toda a compreensão da natureza humana:

Existem diversos motivos que explicam a nossa falta de estabilidade. Temos histórias pessoais complexas, vivemos num estado de catástrofe iminente, somos vulneráveis a perdas devastadoras, o amor nunca é suficiente e o fosso entre expectativas e realidade é sempre intransponível. Dadas as circunstâncias, não faz sentido ver a sanidade como um objetivo. Devíamos antes empenhar-nos em estabelecer uma relação mais sensata e controlada com as formas multifacetadas da nossa insanidade, conhecendo-a melhor: a nossa «insanidade sã».

O que distancia o "insano são" do simplesmente insano é o conhecimento honesto e exato sobre o que não está bem em si. O insano saudável pode não ser completamente equilibrado, mas não é louco a ponto de insistir na sua normalidade. É capaz de admitir, com um certo charme — e sem perder a dignidade — que é, por natureza, estranho em diversos aspetos. Não esconde o que acontece quando se levanta, a meio da noite, nos momentos maus em que a ansiedade ataca, ou quando é assolado por crises terríveis de inveja. Na melhor das hipóteses, pode ser sarcástico quando se refere à tragédia de se ser humano. Expõe os medos, as dúvidas, as ansiedades, os desejos e os hábitos que, por norma, ficam de fora quando contamos a nossa história a nós mesmos. Os insanos saudáveis não constituem uma categoria especial de pessoas mentalmente instáveis, antes representando a versão mais evoluída de um ser humano mais maduro. 

(...) A melancolia não é um sentimento de raiva nem de amargura, mas a forma mais nobre de tristeza, que surge quando aceitamos a ideia de que o sofrimento e a desilusão se encontram no cerne da experiência humana. Não é uma doença que tem de ser curada. É o reconhecimento sensível, apaziguador e sereno de toda a angústia que teremos, inevitavelmente, de enfrentar.

A sociedade moderna tem o hábito de privilegiar comportamentos dinâmicos e entusiastas. Os estados de melancolia ou são tratados com medicação — para «resolver» o problema — ou veem a sua legitimidade totalmente negada. No entanto, a melancolia tem origem no reconhecimento fundamentado da estrutura trágica de todas as vidas. Em estados de melancolia, é possível, sem raiva nem qualquer tipo de sentimentalismo, compreender que ninguém percebe ninguém, que a solidão é universal e que todas as vidas têm o seu quinhão de vergonha e tristeza. A melancolia percebe que muitas das coisas que mais queremos se encontram num conflito trágico entre si: desejamos sentir-nos seguros e, ao mesmo tempo, sermos livres; queremos ter dinheiro e não depender de ninguém; temos a necessidade de pertencer a uma comunidade unida, mas tememos ser reprimidos pelas expectativas da sociedade; almejamos explorar o mundo e, ao mesmo tempo, criar raízes; satisfazer a nossa necessidade de comida, sexo, preguiça e, em simultâneo, manter-nos elegantes, sóbrios, fiéis e saudáveis.

Shantaram

Um fenómeno estranho aconteceu-me com este livro. Comecei a ler no final de Maio e durante 6 semanas foi uma leitura sôfrega e entusiástica, que me fazia querer entender as noites, com os olhos a arder de sono, mas sem querer interromper a leitura. 

No final destas semanas, estando já a mais de 2/3 do livro, tive de fazer uma viagem e achei que não seria boa ideia levá-lo comigo, atendendo às suas volumosas 895 páginas, pelo que pus outros livros na mala (Pequenas Coisas como Estas, A Triologia de Paris e Férias em Paris), que quis terminar antes de voltar a pegar neste. Já de regresso, ainda quis começar o Robison Crusue, que entretanto terminei antes de retomar o ponto onde estava no Shantaram dois meses antes. 

A partir daqui, a leitura já não foi a mesma. É verdade que também houve uma mudança de cenário grande no próprio enredo, mas parecia-me estar a custar a mergulhar de novo na história, muito ao contrário do que aconteceu nos dois primeiros terços, em que era sugada para o enredo, sem mesmo dar por isso. Não consegui bem perceber se foi de mim, se foi da história, houve uma mudança algures no arranque deste último terço do livro, que voltou a fluir como antes, ao fim de centena e meia de páginas.

Tudo somado, a impressão que me fica é a inicial, de um livro imersivo, que nos absorve e envolve de múltiplas formas, lembrando-me de como é bom viver outros mundos e aventuras pelos olhos de quem escreve.

Pontuação: 8/10