Foco (Daniel Goleman)

A probabilidade da nossa mente estar a divagar no exacto momento em que fazemos qualquer coisa é de 50%. E para onde divaga a nossa mente, nessa deambulação constante e persistente? Para onde nos leva, a toda a hora e a todo o momento em que nos encontra distraídos? Sítios escuros, becos sem saída, zonas nebulosas do mundo emocional e maioritariamente ruminativo...

A divagação da mente tende a centrar-se no nosso eu e nas nossas preocupações: tudo o que tenho de fazer hoje; o que não devia ter dito àquela pessoa; o que lhe devia afinal ter dito.

"Embora a mente por vezes vagueie até pensamentos ou fantasias agradáveis, parece mais frequente gravitar em redor da reflexão e da preocupação". Quando estamos focados, concentrados em alguma coisa que genuinamente nos absorve, a passagem por via da qual esse deambular tortuoso nos invade fica vedada. Não será esse o grande privilégio da infância? A capacidade que as crianças têm de estarem presentes em tudo aquilo que fazem, em cada coisa que observam, em que se envolvem? E no entanto, chegados à idade adulta, não é preciso ser um mestre zen para conseguir esse grau de concentração, essa abstração dos pensamentos periféricos (que habitualmente se repartem entre as angústia do passado e as ansiedades do futuro). 

Um inquérito a milhares de pessoas verificou que o foco no aqui e agora era mais elevado quando estavam a fazer amor, exercício físico, a falar com alguém ou a tocar um instrumento musical. 

Quando nos damos conta da capacidade que temos de desligar o ruído interior com actividades tão simples, e do privilégio que é entrar nesse estado de quietude mental, passamos definitivamente a valorizar mais cada uma dessas coisas. Mais do que tantas outras que repetidamente nos vendem como sinónimos de felicidade e bem estar. 

Pontuação: 8/10
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A arte subtil de saber dizer que se f*da (Mark Manson)

Mark Manson é um sucesso de vendas e não é por acaso. De uma forma simples e descomplicada, coloca-nos perante questões que tomamos por seguras e inabaláveis, verdades adquiridas não sabemos bem onde, nem porquê, capazes de moldar o que pensamos, o que fazemos e até o que sentimos, ao longo de uma vida inteira, de forma quase inquestionada.

Nós sofremos, pela simples razão de que sofrer é biologicamente útil. É o agente preferido pela natureza para inspirar mudança. (...) Estamos programados para nos tornarmos insatisfeitos com o que quer que tenhamos e satisfeitos apenas por aquilo que não temos. Esta constante insatisfação manteve a nossa espécie a lutar e a esforçar-se, a construir e a conquistar.

Estamos sempre a fazer escolhas - mesmo quando não nos apercebemos, o próprio acto de não fazer uma escolha, é uma escolha em si - e essas escolhas têm por base aquilo que (mais) valorizamos. São também esses valores que determinam aquilo que sentimos - felizes ou insatisfeitos - com aquilo que alcançámos e que nos permitem definir para onde queremos ir. Manson descreve um conjunto de valores considerados positivos, que se revelam verdadeiras armadilhas - "o prazer é óptimo, mas é um valor péssimo para se tornar a prioridade da nossa vida" - nas quais tantas (e tantas) vezes caímos.

A tomada de decisões com base na intuição emocional, sem o auxílio da razão para as manter na linha, é quase sempre um disparate. (...) Uma obsessão e investimento excessivo nas emoções falha-nos pela simples razão que as emoções nunca são duráveis. O que nos faz felizes hoje, já não o fará amanhã, porque a nossa biologia precisa sempre de algo mais.

Vale a pena dedicar umas horas no sofá - na praia, nos transportes ou na fila do supermercado - para perceber um pouco melhor sobre o que andamos por aqui a fazer. 

Pontuação: 9/10
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O Ano da Morte de Ricardo Reis (José Saramago)

Se nos fosse concedido o privilégio de voltar a ler, pela primeira vez, aquele livro que nos marcou de forma tão singular... O impacto seria o mesmo? Desconfio que não. As nossas circunstâncias seriam outras, somos diferentes hoje daquilo que seremos amanhã, pelo que aquilo que nos tocou num determinado período da nossa vida, ressoaria de forma diferente em qualquer outro. Ainda assim, correndo o risco de perder esse impacto tremendo e as marcas indeléveis que me ficaram da leitura deste livro, gostaria de poder pegar-lhe, uma vez mais, sem saber o que estava prestes a encontrar.  

Ricardo Reis sorriu também, com maior demora, disse, Tenho muito gosto, ou qualquer frase parecida com esta, que as há igualmente banais, quotidianas, embora seja caso muito lamentável não gastarmos nós algum tempo a analisá-las, hoje vazias, repisadas, sem brilho em cor, lembrando-nos só de como teriam elas sido ditas e ouvidas nos seus primeiros dias, Será um prazer, Estou todo ao seu dispor, pequenas declarações que fariam hesitar quem as dissesse, pela ousadia, que faziam estremecer de temor e expectativa que as ouvisse, estava-se então  no tempo em que as palavras eram novas e os sentimentos começavam. 

Este foi um dos livros da minha vida, pela sua simplicidade - na escrita, nos cenários, no tempo e no espaço em que decorre (Lisboa dos anos 30, para cujas ruas somos catapultados e onde parece que efectivamente vivemos, depois de termos habitado estas páginas) - e pela forma magnífica como faz ressaltar, no meio dessa simplicidade, o essencial da existência: as relações humanas, os pequenos gestos, os pensamentos mais ínfimos e discretos que insistentemente perfuram a superfície e nos mantêm em contacto connosco, os detalhes em cada coisa que fazemos, sentimos e dizemos. Os momentos singelos, esses de que é composta toda uma vida.   

Ricardo Reis almoçou sem ligar a dietas, ontem foi fraqueza sua, um homem, quando desembarca do mar oceano, é como uma criança, umas vezes procura um ombro de mulher para descansar a cabeça, outras manda vir na taberna copos de vinho até encontrar a felicidade, se lá a puseram antes, outras é como se não tivesse vontade própria, qualquer criado galego lhe diz o que deve comer, uma canjinha é que calhava bem ao combalido estômago de vossa excelência. 

Pontuação: 10/10
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E, de repente, a alegria

«Tudo aquilo que amámos e perdemos, que amámos imensamente, que amámos sem saber que um dia nos seria roubado, tudo aquilo que, após a sua perda, não conseguiu destruir-nos - embora tenha insistido com forças sobrenaturais e procurando a nossa ruína com crueldade e afinco - acaba, mais tarde ou mais cedo, transformado em alegria.» 

Manuel Vilas

O Animal Social (David Brooks)


Através da história de Harold e Erica, que acompanhamos desde o nascimento até à morte, David Brooks faz-nos um périplo pela existência humana, nos seus dilemas, complexidades e lugares comuns - mas não necessariamente evidentes - da vida de todos nós.

As crianças são treinadas para saltar milhares de graus académicos e, no entanto, as decisões mais importantes que tomarão têm que ver com quem casarão, de quem se tornarão amigas, o que amar e o que desprezar e como controlar os impulsos. Essas questões ficam praticamente entregues à sua sorte.

Como se tivessemos uma espécie de lente amplificadora dirigida a cada uma das delicadas fibras que compõem o tecido da vida humana - o amor, a família, o trabalho, a cultura, as escolhas e decisões, a política, a moralidade, a busca de significado, a velhice - vamos percorrendo os vários capítulos da vida destas duas pessoas, que podiam ser qualquer um de nós.

Grande parte da vida tem que ver com o insucesso, quer o reconheçamos, quer não, e o nosso destino é profundamente moldado pela nossa capacidade de aprender com o insucesso e de a ele nos adaptarmos.

O afecto, dedicação e amparo dos nossos pais - ou a falta dele - a valorização da educação e da cultura no contexto familiar, a estabilidade ou a insegurança do ambiente à nossa volta, cada um destes ingredientes acompanha-nos ao longo da vida, determinando a forma como nos posicionamos perante o mundo e os outros, influenciando a forma como encaramos tudo o que nos rodeia. 

Não somos quem julgamos ser, conclui Brooks a propósito do papel oculto e tantas vezes insuspeito que o inconsciente detém no percurso de uma vida, nas escolhas que fazemos, nas decisões que tomamos. 

O inconsciente é impulsivo, emocional, sensível e imprevisível. Precisa de supervisão. Mas pode ser brilhante. É capaz de processar uma catadupa de dados e, de forma ousada, dar saltos criativos. Acima de tudo, é também maravilhosamente gregário. O vosso inconsciente, esse extrovertido interior, quer que olhem à volta e se relacionem.

Se há livros que conversam connosco, este é um deles. E é uma conversa que gostaríamos que não acabasse. 

Pontuação: 9/9

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O Amor em Tempos de Cólera (Gabriel García Márquez)


Há amores que perduram para lá do tempo e de todas as probabilidades. O amor do protagonista desta história inigualável e o amor que guardamos para sempre a esta obra, depois de a conhecermos.

Era ainda demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e que, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.

García Márquez dispensa apresentações e escreveu esta história de amor, desejo e persistência, delineada nos cenários fulgurantes de uma pequena cidade portuária do Caribe, grassada pela pobreza e pela cólera. Ao conhecer Fermina Daza, Florentino acredita que nunca mais estará sozinho. A partir desse dia alimenta um amor pelo qual se decide a esperar toda a vida, sem considerar o risco - insidioso e irrevogável - de desperdiçar a própria existência.

De modo que na tarde em que viu as andorinhas nos cabos da luz, reviu todo o seu passado desde a sua recordação mais antiga, reviu os seus amores de ocasião os incontáveis obstáculos que tivera de ultrapassar para chegar a um cargo de chefia, os inúmeros incidentes que lhe provocaram a sua determinação encarniçada de que Firmina Daza fosse sua e ele dela, passando por cima de tudo e indo contra tudo, e só então descobriu que a sua vida estava a gastar-se.

Desse lugar perdido na América Colonial dos finais do século XIX, ficam-nos as impressões mais indeléveis. Um lugar que passamos a conhecer em profundidade - as gentes, os costumes, os sons, as cores, os ritmos - sem nunca lá termos estado fisicamente.

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na sala, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgência para tratar de um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos.

Pontuação: 10/10

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Livros para a quarentena


«A essência da loucura é a solidão. Uma solidão psíquica absoluta que provoca um sofrimento insuportável. Uma solidão tão superlativa que não cabe dentro da palavra solidão e que não pode ser imaginada por quem não a conheceu.» 
A Louca da Casa, de Rosa Montero

O Caminho Menos Percorrido (Scott Peck)

Se tivesse de identificar um dos livros mais determinantes no meu percurso de vida, de permanente descoberta e construção indicaria este. Scott Peck derruba conceitos que nos são incutidos cultural e socialmente desde muito cedo, permitindo-nos pensar de forma honesta e lúcida sobre realidades tantas vezes inamovíveis durante toda uma vida.

A tentativa de evitar o sofrimento está na base de todas as doenças emocionais.

Este é um livro transformador, que inquieta e desarruma quem se dispõe a pensar, reflectir e questionar certezas (próprias ou alheias) ilusoriamente securizantes, abrindo caminho para novas formas de estar, ver e sentir o mundo.

As crianças que crescem num ambiente onde o amor e a atenção estão ausentes entram na idade adulta sem esse sentimento de segurança interior. Em vez disso, têm um sentimento de insegurança, de que o mundo é imprevisível e avarento e de que não são passíveis de ser amadas e consideradas valiosas.

Da mesma forma que há um antes e um depois de um processo psicoterapêutico, há um antes e um depois deste livro.

Pontuação: 10/10
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O Outono do Patriarca (Garcia Márquez)

Quase todas as ditaduras têm um toque de irrealidade, de aparente fantasia, cenários desconcertantes e difíceis de conceber. Se juntarmos a esse fator, típico dos regimes absolutistas, a imaginação que deu origem ao realismo mágico que caracteriza o universo de Garcia Marquez, percebemos que estamos perante um livro magistral.

Esta é mais uma daquelas leituras que fiz há muito tempo, tanto que parece ter sido numa outra vida. Mas que de alguma forma ficou sempre comigo, na forma como cenários e situações se apresentaram e ficaram gravados pela sua natureza tão única, tão improvável...

À semelhança de tantos outros livros de Garcia Marquez, cada página que lemos transporta-nos para o universo ali descrito e mergulhamos numa realidade única e indelével. 

Pontuação: 9/10
Sinopse: Quando os revolucionários entram no enorme palácio em ruínas encontram o corpo do ditador em decomposição numa emaranhada anarquia onde se misturam o passado e o presente. Um presente já perdido e desfeito, um passado de uma riqueza inimaginável num palácio pejado de ministros, guarda-costas e criados que mantinham o ditador precariamente equilibrado no poder, e também uma imensidão de mulheres e crianças e um sósia cuja perfeição provocava graves crises de identidade em ambos. A atmosfera é de sonho, mesmo de pesadelo, real, vibrante e sensualmente exacta, ao mesmo tempo vaga e inacreditável. 

A Balada do Medo (Norberto Morais)


A Balada do Medo foi a minha estreia com Norberto Morais, de que já muito ouvira falar a propósito de O Pecado de Porto Negro e revelou-se uma leitura magnética e compulsiva. Lembrando de certa forma o realismo mágico de Garcia Marquez, o autor evoca cenários de uma América Latina perdida nos confins da nossa memória imaginativa, transportando-nos para um mundo envolvente e fantasioso. 

O conflito armado cobrira o país de viúvas jovens e noivas por casar. E era tal a oferta e tanta a carência, que não fora difícil a Cornélio, homem de poucos predicados, lograr conquistas por onde passava. Modesto de charme e beleza natural, valia-lhe a finura do trato e um palrar meloso e atrevido, que, a par com a carência das escolhidas - para as quais tinha olhos de puma -, bastavam para a conquista.

Cornélio Pentecostes, um homem que a tantas mulheres se deu, que acabou por não se dar a nenhuma, vive consumido pela angústia da sua morte aparentemente encomendada e eminente. Dividido entre o desejo de prorrogar por um dia mais a terrível fatalidade e a incapacidade de desfrutar desses que são provavelmente os seus últimos dias, Cornélio arrasta-se pela sua aldeia natal num sem fim de lucubrações e hesitações, decisões e indecisões, ruminações e contradições várias. 

Nas horas solitárias pensava em Mariana, mas todas as noites o último bater do seu coração, antes de adormecer, pertencia, saudoso e culpado, a Rosa Cabrera. E, para não cometer a loucura de se perder, foi aos poucos afastando dela o sentido; enxotando para longe o pensamento que a procurava, até esta se tornar uma imagem perfeita eternizada no âmbar da memória. 

Devorado pela dúvida, Cornélio acaba por escolher um caminho que o obriga a virar costas ao mundo que afinal era o seu - que gentilmente o acolhia e amparava - catapultando-o para um lugar ao qual julgara não mais voltar, onde se confronta com um passado que nele persiste com a mesma força com que doze anos antes o deixara para trás. 

Bem o pressentimento lhe dissera não dever ter ido ali, matar a fantasia, acabar com o que em si ainda brilhava de esperança no amor sincero. Porque nunca ouvia ele a voz da razão? Porque insistia em ir?»    

Pontuação: 8/10
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Um homem apaixonado: A Minha Luta 2 (Karl Ove Knausgärd)

Neste que é o segundo livro da saga autobiográfica que se iniciou com A Morte do Pai, Karl Ove é um homem em ruptura.

«Toda a beleza existente no mundo, que deveria ser insuportável de tão grande, deixava-me simplesmente indiferente. A minha vida deixava-me indiferente. Era assim - e havia tanto tempo que era assim que não fui capaz de aguentar mais e decidira, portanto, fazer alguma coisa.»

É neste estado de alma que Karl Ove parte para a Suécia, sem outro plano definido que não seja o de virar costas a tudo aquilo que o conduziu aqui.

«Aos quarenta anos, a vida até então vivida, sempre a título provisório, transformava-se pela primeira vez na própria vida (...). Aos quarenta anos, compreendia-se que tudo estava só onde se estava, na vida quotidiana banal, sob a sua forma definida, e que as coisas continuariam a ser para sempre iguais, a menos que se fizesse alguma coisa em contrário.»  

Em Estocolmo descobre um mundo de possibilidades e experimenta uma sensação de liberdade há muito esquecida, originando um misto de estranheza e inebriamento. Nesse contexto, reencontra Linda, uma figura do passado por quem tiveram uma paixão fugaz, mas não correspondida. Este reencontro dará lugar a um novo capítulo na sua história. Um capítulo que, à semelhança de tudo o mais que fomos conhecendo da vida do autor, nada tem de simples ou linear.

«Mantive-me durante tida a minha vida adulta distante das outras pessoas, foi a maneira que arranjei para me defender, uma vez que me sinto tão espantosamente próximo dos outros nos meus pensamentos e sentimentos que basta que eles me ignorem ou me dêem pouca importância para que uma tempestade rebente dentro de mim»

Se ocasionalmente a densidade da escrita se revelou difícil de transpor - fruto de algum excesso de pormenor na descrição de determinados momentos que, por vezes, se torna fastidioso - valeu a pena para chegar até aqui.

Pontuação: 8/10

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(In)Fidelidade (Esther Perel)


Esther Perel - autora de Amor e Desejo na Relação Conjugal que  lera há alguns anos - tem uma forma brilhante de pensar e debruçar-se sobre as relações humanas, em particular a relação de casal. Longe da visão monocromática, redutora e moralista com que estes temas são muitas vezes abordados, Perel procura compreender o que está por trás do fenómeno, o que impele o ser humano para a vivência de qualquer coisa que pode ser tão desestruturante e causadora de tanto sofrimento.

Atualmente, a discussão em torno dos casos extraconjugais tende a ser fraturante, sentenciosa e míope. Embora a nossa cultura esteja cada vez mais aberta ao sexo, a infidelidade continua envolta numa nuvem de vergonha e secretismo. (...) As crenças sobre a infidelidade estão bem enraizadas na nossa psique cultural e questiona-las será certamente visto por alguns como irreverência perigosa ou bússula moral avariada da minha parte. 

Não condenar não significa aprovar e existe uma grande diferença entre compreender e justificar, mas quando reduzimos a conversa a simples juízos de valor, ficamos sem nada para debater, prossegue a autora, como ponto de partida para este exercício basilar que a psicologia desempenha como nenhum outro ramo do conhecimento, de para tudo olhar sem julgamento ou apriorismos morais, numa tentativa genuína de procurar significados e motivações, não só no intuito de compreender a infidelidade, mas também de extrair conclusões que permitam repensar o amor e as relações. 

A precipitação em optar pelo divórcio não dá margem ao erro, à fragilidade humana. Também não dá margem ao processo de reparação, superação e recuperação.

Não sendo um livro de ficção, a verdade é que se lê como tal, pela forma cuidada, inteligente e cativante como a autora vai desvendando o que se esconde a coberto de uma realidade tão censurável e universalmente praticada ao longo de toda a história da humanidade.

Por vezes, quando buscamos o olhar de outra pessoa, não é ao nosso companheiro que viramos costas, mas à pessoa em que nos tornámos. Mais do que um novo amante, procuramos encontrar uma outra versão de nós próprios. 

Pontuação: 9/10 
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O Melhor de 2019



É difícil eleger o livro de que mais se gostou ao longo de um ano. Há um punhado deles que se destacam para este lugar: Eliete, Um Gentleman em Moscovo, Berta Isla… Não obstante, e porque a vida é feita de escolhas, Em Tudo Havia Beleza terá sido aquele que mais me marcou, de entre tudo o que li em 2019:

1.      Como Pensar Mais Sobre Sexo (Alain de Botton)
2.      A ridícula ideia de não voltar a ver-te (Rosa Montero)
3.      Berta Isla (Javier Marias)
4.      Em Tudo Havia Beleza (Manuel Vilas)
5.      Cadernos do Subterrâneo (Fiódor Dostoiévski)
6.      A Equação da Felicidade (Mo Gawdat)
7.      Minha Ántonia (Willa Cather)
8.      As Grandes Cartas de Amor (Editora Guerra & Paz)
9.      Depois de Tu Partires (Maggie O'Farrell)
10.  Vida Desfeita (Sonali Deraniyagala)
11.  Eliete (Dulce Maria Cardoso)
12.  Seda (Alessandro Baricco)
13.  A Escolha (Kristin Hannah)
14.  O Chão dos Pardais (Dulce Maria Cardoso)
15.  Ethan Frome (Edith Wharton)
16.  São Lágrimas, Senhor, São Lágrimas (Fernando Correia)
17.  A Casa de Papel (Carlos María Domínguez)
18.  A arte de não amargar a vida (Rafael Santandreu)
19.  A Vida em Exame (Stephen Grosz)
20.  A Única História (Julian Barnes)
21.  A Louca da Casa (Rosa Montero)
23.  Serotonina (Michel Houellebecq)
24.  Perder para Ganhar (Montse Barderi)
26.  Tempos Difíceis (Charles Dickens)
27.  E Então Vais Entender (Claudio Magris)
28.  12 Regras para a Vida (Jordan B. Peterson)
29.  Tess dos D’Urbervilles (Thomas Hardy)
30.  O Voo do Corvo (Juliet Marillier)
31.  Luz Antiga (John Banville)
32.  Os Meus Sentimentos (Dulce Maria Cardoso)
33.  Princípio de Karenina (Afonso Cruz)
34.  Um Gentleman em Moscovo (Amor Towles)
35.  Na Urgência (Joana Benard Costa)
36.  A Voz (Juliet Marillier)
37.  A Morte do Pai (Karl Ove Knausgård)
38.  Porque Amamos (Helen Fisher)
39.  (In)fidelidade (Esther Perel)

Um Gentleman em Moscovo (Amor Towles)


Frequentemente, aqueles que desfrutam da espuma dos dias, que sabem e se dedicam a apreciar a vida nos seus mais ínfimos e deleitosos pormenores, ostentando o tipo de riqueza insusceptível de despojamento e/ou apropriação por outrem, instigam o desdém de outros cujas vidas submergem numa labuta feroz, indubitavelmente digna, mas tantas vezes embrutecedora. 

O tipo de labuta que exige uma entrega fervorosa, devota e absoluta, rejeitando e reprimindo quaisquer outros modos de ser ou estar, não vá a dúvida - ou a constatação - de um certo tolhimento ou pequenez instalar-se e fazer colapsar todo um mundo de convicções, dedicação, entrega e sacrifício.

Vyshinski: Qual é a sua profissão?  
Rostov: Um cavalheiro não tem profissão.
Vyshinski: Muito bem. Então, como é que ocupa o seu tempo?
Rostov: Com jantares, conversas, leituras, reflexão. O habitual.

Condenado pela publicação de um poema, nos primeiros anos do regime Soviético, a viver no interior do Hotel Metropol, onde anteriormente ocupava uma suite de luxo, o Conde Rostov é remetido para um pequeno quarto de arrumos no sótão, onde passará longos anos a partir de então. Em todo esse tempo Rostov nunca perde o domínio - inequívoco e inabalável - sobre si próprio e a sua individualidade. Nenhuma centelha de raiva ou de revolta se vislumbra no seu comportamento, no seu pensamento, na postura que mantém ao longo de anos de subjugação, a que opõe uma absoluta liberdade interior, numa demonstração clara de que nós não somos as nossas circunstâncias, mas aquilo que escolhemos fazer delas. 

Simultaneamente, e contrastando com esta visão alheada dos acontecimentos exteriores, há uma voz de fundo que nos vai dando nota de todas as pequenas e grandes contradições do desejo e da ambição (política, social e individual) que tragicamente se atropelaram na tentativa de implementação de uma revolução. Uma revolução feita por homens, incongruentes e imperfeitos, como todos os homens são. 

Pontuação: 9/10
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A Morte do Pai: A Minha Luta: 1 (Karl Ove Knausgärd)

A natureza humana continua a ser, para mim, uma fonte inesgotável de interesse e atracção. Há coisas que intuímos em nós, mas que nem sempre passa disso, um ténue vislumbre intuitivo. Outras, nem chega a tanto. A percepção clara e inequívoca de toda uma infinidade de modos de ser ou estar, de sentir, de pensar, de viver, chega-nos pela voz de terceiros.

E ali estava eu, a desempenhar papéis, a fingir isto e aquilo. (...) O pouco que tinha de meu, renegava-o ou guardava-o para mim mesmo. Havia, por conseguinte, algo de furtivo e duvidoso no meu carácter, não tinha nenhum dos atributos sólidos que encontrei em certas pessoas durante essa época, pessoas que, por essa razão, admirava.

A escrita autobiográfica, quando efectivamente genuína e lúcida, torna-se uma das vias mais interessantes de conhecer essa imensidão de mundos subjectivos. Neste que é o primeiro de seis volumes, Carl Ove - que aqui se dá a conhecer de forma honesta e crua - faz uma incursão pelo período da sua infância (fria e solitária) da juventude (as descobertas e experiências iniciáticas, a par com a perda das primeiras ilusões) e entrada na idade adulta.

Quando chegava a casa, interpretava tudo o que ela dissera e fizera na escola, e isso enviava-me para a mais profunda miséria ou para o mais elevado pico de excitação - não havia meio termo.

A morte do pai, que ocupa neste livro um lugar central, relança o olhar sobre as relações familiares do passado, agora vistas numa perspectiva adulta e um pouco mais esclarecida - por oposição ao misto de confusão e receio que toldava o olhar no tempo em que foram vividas - um emaranhado de laços soltos, desconexos e arredios que Ove esforçadamente procura compreender.

Ele dissera muitas vezes que o  nosso pai lhe arrasara por completo a auto-estima em muitas ocasiões, que o humilhara como só ele conseguia fazer, e que isso influenciara alguns períodos da sua vida em que se sentia um inútil e incapaz de fazer fosse o que fosse. Noutros períodos, tudo corria bem, tudo fluía, não havia dúvidas. Para quem estava de fora, só estes últimos eram visíveis. 

Pontuação: 8/10
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A Mulher Certa (Sandor Márai)

Assim como acho importante saber de que forma duas pessoas se conheceram, também me parece interessante saber de que forma um determinado livro chegou até nós. Sem esse elo muito particular, tantas vezes contingente e aleatório, esse feliz encontro nunca teria acontecido.

A leitura da Mulher Certa resultou de uma conversa com uma colega do meu grupo de leitores a propósito de um livro de Graham Greene (O Fim da Aventura), que estive à beira de abandonar até perceber, a meio do livro, que toda a história que até ali havia sido contada por um dos protagonistas - a mulher de uma conturbada relação amorosa - iria ser (re)contada pela outra parte - o homem, no caso - colocando-nos nessa posição tão privilegiada quanto rara que nos permite ter uma visão exacta dos dois lados da história: não apenas dos factos e eventos externos, mas também de tudo aquilo que se passava no íntimo de cada um dos personagens.


No apartamento estava tudo no seu lugar, só que as divisões pareciam vazias (...). Não são os móveis que dão vida a uma casa, mas o sentimento que anima as pessoas que nela habitam.

O mesmo se passa n' A Mulher Certa. É a história de um casal que se desfaz, dando origem a uma outra relação, que começara por ser paralela, e acaba, por sua vez, também por fenecer. A história - qualquer uma delas - é triste, mas é extremamente feliz a forma como a mesma nos é apresentada, como nos é contada, à vez, por cada um dos membros do trio amoroso.

Esse estado de relativa felicidade em que eu vivera e sofrera nos últimos anos, devorada pela angústia, porque essa falsa felicidade me parecia intolerável, agora, desvanecera-se, não existia mais - subitamente eu apercebia-me disso -, fora o máximo que a vida pudera oferecer-me.

Sándor Márai é exímio em revelar-nos a complexa teia de sentimentos e infindável miríade de pensamentos, emoções, desejos e anseios que habitam os recantos mais profundos dos seus personagens, colocando-nos no papel de confidentes circunstanciais e privilegiados dos protagonistas do seu romance.

Pontuação: 8/10
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Homo Deus - História Breve do Amanhã (Yuval Noah Harari)

Homo Deus é simplesmente brilhante. Começando por uma magnífica aula de história sobre os problemas que assolaram o mundo - a fome, as epidemias e a guerra - passando para uma projecção do que nos espera num futuro que se avizinha a passo rápido, mas que nos parece tão longínquo no pequeno espaço de uma vida e da capacidade que a nossa imaginação tem de ultrapassar as fronteiras daquilo que conhecemos no tempo que habitamos.

Ao contrário do que se passa numa tradicional aula de história, Harari fala-nos num tom empolgante, com um entusiasmo que contagia e inevitavelmente capta o nosso interesse e atenção, brindando-nos com uma espreitadela a este futuro próximo, onde o envelhecimento pode vir a ser considerado uma maleita - tratável como tantas outras - e a felicidade universalmente acessível através de um simples comprimido. Um futuro que provavelmente não conheceremos de outra forma que não esta, da mera antevisão possível. 

Se com Sapiens, Yuval Harari nos fez sentir afortunados por vivermos na era actual, em Homo Deus não conseguimos deixar de sentir alguma pena - para não dizer uma pontinha de inveja - por não estarmos no lugar daqueles que poderão ter o privilégio de conhecer esses apelativos tempos vindouros. 



Ao longo de muitas gerações, o nosso sistema bioquímico adaptou-se para nos garantir as melhores hipóteses de sobrevivência e reprodução e não para nos tornar felizes (…) O que teria acontecido se uma mutação rara tivesse criado um esquilo que, ao comer uma noz, ficasse satisfeito para sempre? Do ponto de vista técnico, isto é possível se se alterar a configuração cerebral do esquilo. Quem sabe se isso não terá acontecido há milhões de anos a um esquilo sortudo. Mas, se aconteceu, o esquilo levou uma vida feliz e extremamente breve e essa mutação rara ficou por aí, porque o esquilo abençoado não se iria dar ao trabalho de procurar nozes, quanto mais companheiros sexuais. É por essa razão que as nozes que os humanos tentam juntar – empregos bem pagos, grandes casas e parceiros atraentes – raramente os mantêm satisfeitos por muito tempo.

Pontuação: 9/10
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A ridícula ideia de não voltar a ver-te (Rosa Montero)

Este é um daqueles livros que poderiam integrar a categoria de confort books. À semelhança do que acontece com a confort food, não é fabuloso, do ponto de vista nutricional, mas sabe bem e há dias em que não há nada que queiramos mais.

É um livro que se lê de uma penada. Parece uma espécie de companhia que trazemos no bolso, que fala connosco de cada vez que o abrimos. É claro que todos os livros fazem isso, de uma forma ou de outra, mas há aqueles para onde espreitamos de longe, como se ninguém, no enredo, se apercebesse de que estamos ali, e há aqueles, como este, em que a autora se nos dirige directamente e conversa connosco, do princípio ao fim.

É um livro ligeiro - com tudo o que isso tem de bom e mau - mas cheio de conteúdo. E nesse campo, já não poderei dizer que seja ligeiro. A autora aborda a vida de Marie Curie - quem era, de onde veio, para onde foi e por onde passou - numa época em que o mundo não estava feito para mulheres como ela, com as suas ambições pessoais, profissionais, académicas, intelectuais, etc.

Marie Curie teve um percurso notável a todos os níveis e é um privilégio conhecer os meandros de uma vida assim, contado por alguém que não se cinge aos feitos científicos, mas que olha para a mulher que alcançou e viveu esses feitos, à mistura com outros tantos, de que é composta uma vida.

Rosa Montero intercala a vivência do luto de Marie Curie, com base no diário escrito por esta após o falecimento do marido - «por momentos a minha dor parece que enfraquece e adormece, mas logo renasce, tenaz e poderosa» - com a sua própria experiência de luto, também por morte precoce do marido - «ainda não passara um mês sobre a morte de Pierre e a primavera explodia com aquela desconcertante indiferença com que a vida continua depois da morte de alguém querido» - entrelaçando uma e outra de forma sensível, emotiva, terna e inteligente.

A vida - seja ela qual for - está repleta de momentos difíceis, espinhosos e dolorosos. Não há como evitá-lo. O importante é saber lidar com todas essas coisas que nos acontecem. E é esse o conforto que se retira de um livro assim, o perceber que cada uma destas pessoas foi capaz de lidar com as suas circunstâncias, por vezes tão duras, tão agrestes, tão adversas. E acreditar que alguma dessa sabedoria, por ínfima que seja, fique connosco. 

«A vida abre caminho com a mesma obstinação com que uma plantinha minúscula é capaz de rasgar o chão de cimento para se assomar. Mas, ao mesmo tempo, a mágoa também segue o seu curso. É é isso que a nossa sociedade não gere muito bem: escondemos ou proibimos, imediata ou tacitamente, o sofrimento.»

Pontuação: 9/10
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Servidão Humana (Somerset Maugham)

Para Espinosa a servidão era a impotência do ser humano para governar ou restringir as suas emoções: o homem submetido aos afetos é impotente para regulá-los, está ao sabor do vento, incapaz de dosar, ordenar os afetos aos quais, por fim, se submete. É esta a origem do título deste romance magistral de Somerset Maugham, onde acompanhamos a vida de Philip Carey, desde os primeiros anos - uma criança franzina, solitária, insegura, entregue aos cuidados de um tio vigário, austero e frio - até à idade adulta, altura em que tropeça numa jovem camareira, sedutora e ambiciosa, que o priva da liberdade singular sobre si próprio. 

Sendo embora um homem adulto e esclarecido, Philip torna-se um joguete nas mãos caprichosas desta mulher que não o quer, mas não o liberta do jugo férreo em que o retém, gravitado à sua volta, na expectativa de qualquer coisa que de lá não vem.  

Era-lhe divertido pensar que os amigos o consideravam um espírito forte, um ser reflectido e calmo, simplesmente porque o seu rosto não lhes revelava os sentimentos com muita expressão e porque era lento nos gestos. Achavam-no razoável e elogiavam-lhe o bom senso. A sua expressão plácida, porém, não era mais do que uma máscara, usada inconscientemente (...) e frequentemente se admirava da fraqueza da sua vontade. Parecia-lhe que a menor comoção o movia como o vento move as folhas, e, quando a paixão o arrastava, sentia-se impotente. 

Uma história de vida, como tantas outras, marcada por momentos de escuridão, dúvida, revolta e desespero, ponteada pelo despertar da consciência - de si próprio e dos outros - pela determinação para abrir mão de desejos tão arreigados quanto nefastos, para abandonar caminhos há muito calcorreados e descobrir novos trilhos possíveis. Ao longo desse processo, Philip observa e reflecte sobre o mundo à sua volta, de forma única e profunda. 

A má alimentação e as condições insalubres de existência reflectiam-se nas faces descoradas. Interesses mesquinhos embruteciam-lhes as feições, e os olhos eram astutos e fugidios. O aspecto desses entes não traduzia nobreza alguma, sentindo-se que, para a maioria deles, a vida era uma série de preocupações insignificantes e de pensamentos abjectos.

Estes são as linhas gerais que recordo da história. Mas mais importante do que isso, o que retenho e faz deste livro uma verdadeira obra prima, é a sensação de ter visto o mundo pelos olhos de Philip - desde as costuras do conservadorismo britânico à desregrada vida boémia de Paris - de ter sentido na pele todas as emoções e conflitos interiores - as ilusões e as desilusões, as angústias e arrebatamentos - tudo aquilo que viveu e sentiu ao longo do percurso assombroso que acompanhamos nas páginas deste romance. É a sensação de ter vivido uma vida que não era a minha (nunca poderia ser) de um ser humano absolutamente extraordinário - com todas as suas limitações, fraquezas, vulnerabilidades e imperfeições - que a despeito dos muitos obstáculos e adversidades que se lhe atravessam no caminho, não desiste de encontrar o seu lugar no mundo. 

Pontuação: 10/10
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